Quinta-feira, Outubro 30, 2003

A Familia de Ontem

O Público de 27 de Outubro faz referência à campanha iniciada por um partido denominado Partido Nacional Renovador. Não tenho conhecimento nenhum do partido, do que o move, da sua estrutura ideológica, etc. Para além desta notícia, é a primeira vez que ouço falar em tal partido. Também ainda não vi, ou pelo não reparei nos cartazes que, segundo noticia o Público, começaram a ser espalhados pela cidade. Pelo teor do cartaz que surge no jornal, com slogans como ‘Portugal envelhece e morre’ (supostamente devido à emigração, vista como um vírus que contaminou Portugal!!!), ou a ‘Família é uma prioridade nacional’ (o meu favorito!!!), antevejo um partido claramente, e sem aparente pudor, xenófobo, racista, homofóbico, o típico partido patriarcal que nos quer meter na ordem. Gostei, como quem diz, particularmente do segundo slogan, porque deliro em torno dessa ideia fantástica que determinadas pessoas têm da instituição familiar nuclear e da incapacidade que revelam para perceber que a família, como tudo, é um conceito, é uma construção social, sujeita a mudanças e a negociações.
Numa crónica data de 23 de Janeiro de 1993 (posteriormente publicada no livro Os Tempos que Correm, 1996), o antropólogo Miguel Vale de Almeida, proponha ao leitor, um pequeno exercício de terreno. Proponha ele a realização de um pequeno questionário, junto a um prédio da nossa escolha, composto apenas por duas perguntas, a saber, ‘quantas pessoas vivem no apartamento?’ e ‘que relações de parentesco têm entre si?’ Após a recolha dos dados, proponha, então o antropólogo, a realização de um pequeno relatório sobre a ‘Família’. O propósito do exercício seria a descoberta empírica dos vários tipos de organização familiar que actualmente coabitam com o modelo tradicional de família nuclear, constituída por pai, mãe e filhos, monogâmica, heterossexual, reprodutiva. A família da Igreja, da escola, dos anúncios de publicidade, do Estado, dos manuais de sociologia, não está sozinha, uma vez que coabita com todo um outro conjunto de uniões entre os seres humanos. Podemos, sem duvida dizer, que quando falamos na crise da família estamos a falar de um tipo particular de modelo de família. E está em crise, porquê? Grosso modo, porque a liberdade individual, as relações de afecto, os movimentos sociais, a liberdade sexual, a separação entre sexualidade e reprodução, tornou possível a emergência que outras formas de viver em família.
Podemos argumentar que a família nuclear está em crise devido à entrada da mulher no mundo do trabalho, devido aos movimentos feministas e ao movimento gay e lésbico; podemos argumentar também que a crise é fruto da modernidade ou da pós-modernidade que atravessamos. De todos os factores que podem estar na base destas mudanças, um deles parece-me basilar, a saber, a dimensão afectiva que está na base das relações que hoje em dia estabelecemos, quer como casais, quer como pais ou filhos. Não podemos negar que é o afecto que, cada vez mais, vai ditando os relacionamentos que mantemos. Nesse sentido, a família já não pode ser concebida como uma entidade económica, reprodutiva, uma vez que temos de ter linha de conta, que as relações de conjugalidade se estabelecem agora com base no princípio do ‘amor romântico’. O que verificamos é que a família, assim como a sexualidade, o casamento e as relações sociais, estão a sofrer um incrível processo de transformação, processo esse intimamente relacionado com a importância que agora é dada à dimensão afectiva e emocional inerente aos seres humanos.
Que o modelo tradicional, monogâmico, reprodutivo, heterossexual, seja continuamente objecto de referências e de laivos de saudosismo, é um facto que não podemos negar. Está em todo o lado, é objecto de discursos, de campanhas publicitárias, de referências quotidianas, é encarado, pensado e reproduzido como se representasse o suporte do bem-estar social, assente na ‘normalidade’ dos comportamentos. Assim como não podemos negar o favoritismo em termos de projecção mediática que este mesmo modelo é alvo. Mas a mãe solteira, o casal gay, os pais adoptivos, o casal de divorciados também são ‘famílias’, apesar de não serem objecto de retratos publicitários, apesar de não se verem retratados nas políticas do governo. A crise da família moderna está subjacente a todas estas transformações em torno da intimidade, transformações que possibilitam aos indivíduos um conhecimento aprofundado do corpo e da sua sexualidade, assim como permitem que esse mesmo conhecimento seja vivido em liberdade de escolha.
Ora, o que me assusta neste tipo de pensamento, ostentado não só por este partido, mas também por outros a um nível talvez mais soft, é a incapacidade que demonstra em reconhecer essa mesma dimensão, em reconhecer a sexualidade como prazer, procura e descoberta e não como mero acto com finalidade reprodutora, em reconhecer a afectividade e o sentimento como os principais motores de união. Quando pensamos que estamos a fazer civilização verificamos que existem outros que teimam em nos manter encarcerados, nesses ideais absurdos e castradores da nossa própria liberdade de sentir, de viver a nossa sexualidade, as nossas escolhas, a nossa afectividade. Acho, e pelo menos falo por mim, que já não há pachorra para tanto provincianismo, para tanta ‘idiotice’, ignorância, conservadorismo, hipocrisia junta.

Terça-feira, Outubro 28, 2003

Palavras que Tocam Fundo

Canção Os Mares dos Meninos D’Avó,
letra: Mafalda Veiga, Música: Pedro Pereira

Doze dias doze noites
Em tempestade de norte
Um marinheiro à deriva
Entregue ao vento e à sorte

Doze dias doze noites
Sem estrela p’ra se guiar
Só o brilho dos teus olhos
Ainda me faz navegar

Os mares são fundos como a saudade
A noite é longa como a vontade de abraçar

Doze luas doze sóis
Doze pontas de punhais
E este barco sem um rumo
E este barco sem um cais

Os mares são fundos como a saudade
A noite é longa como a vontade de te encontrar
Os mares são fundos como a vontade
A noite é longa como a saudade de te abraçar

Quarta-feira, Outubro 22, 2003

Vivemos no Tempo dos Assassinos

Gosto da música do Jorge Palma. Gosto da personagem Jorge Palma, por assim dizer. A música dele transmite-me uma noção de tempo diferente. Devolve-me algo, creio. Algo que não consigo definir em palavras. Permite-me viajar. Gosto de me encostar a essas memórias, essas imagens e sensações que a música me traz. Faz-me lembrar também o Sérgio, a meninice do Sérgio, os seus caprichos de criança com quatro anos de idade. Lembro-me de cantar com o meu Serginho o ‘Bairro do Amor’, ‘Quero o meu dinheiro de volta’, com um sentimento de felicidade que só existe quando somos ou estamos com crianças. Lembro-me de rodopiar com ele pela cozinha, lá de casa, a gritar em plenos pulmões: ‘eu quero o meu dinheiro de volta/ tanta gente dar-me a volta/ não foi para isso que eu vim cá. Quero o meu dinheiro de volta/ não é tarde, nem é cedo/ eu quero o meu dinheiro já.’ Quero manter a minha demência rente, porque neste mundo, neste caos, é apenas no delírio que encontro a minha sanidade.


Segunda-feira, Outubro 20, 2003

E agora o assunto do dia

Foi com grande pena, que li as declarações de Soares Franco, sobre Pinto da Costa, nomeadamente a analogia com o Papa João Paulo II. Estas afirmações, foram infelizmente muito tristes, pois demonstram uma falta de sensibilidade e um desrespeito para com a figura do Papa João Paulo II. Que apesar de de alguns erros e de algumas opiniões com as quais não concordo, é sem duvida uma personalidade de grande generosidade e que merece profundo respeito. Fico por isso triste que um membro do meu clube, sim Eu só do S.C.P., tenha proferido tais afirmações e feito tais comparações. Essa tristeza é tão maior dado o facto de Pinto da Costa estar de tal maneira longe da figura de João Paulo II, que se não fica-se ofendido pelo comentário acerca de João Paulo II, até se poderia considerar elogiado. E também com menor mas alguma tristeza que me vejo obrigado a concordar com Pinto da Costa, no afirmar que esse “Sr. Soares Franco” não é digno de representar nem o S.C.P. nem Portugal seja no Futebol seja noutra coisa qualquer.

Hoje não me apetece

Estava a pensar no que escrever, e eis que surgem notícias graves (se forem correctas, e o facto e que os visados as não desmentiram) sobre o PS e o caso da Casa Pia. Mas se escreve-se novamente sobre esse assunto. Parecia que este era o único propósito deste blog. E não sendo, mas sobretudo estando já cansado deste assunto, não vou comentar.

Segunda-feira, Outubro 13, 2003

Pedofilia II

Estava eu a recuperar, das minhas questões pessoais, e pensando sobre o que haveria de escrever. E eis que recebo com espanto a notícia de que o Dr. Paulo Pedroso iria ser libertado. O meu espanto no entanto não se deve a sua libertação. Pois num estado de direito, é sempre possível que um tribunal de instância superior reveja as medidas de coacção aplicadas por outro tribunal. O que me espantou foi a festa que um partido organizou em volta dessa decisão. Espantou-me e chocou-me. Espantou-me por que pensei, que esse partido tivesse a dignidade e o bom senso de perceber, que o Dr. Paulo Pedroso não foi considerado nem culpado, nem inocente, logo nada há a festejar. Chocou-me porque nunca esperei que sendo suspeito, logo podendo ainda vir a ser considerado culpado, ele regressa-se ao seu lugar de deputado. E por quê este choque? Bem se uma pessoa está a braços com a possibilidade de vir a ser considerado culpado de um crime desses, deveria de ter a dignidade de se resguardar até a decisão final. No entanto eu consigo perceber a posição do Dr. Paulo Pedroso, visto que se afirma inocente. O que me choca e me surpreende é a atitude do seu partido. Não só pela festa que fizeram, quando nada está decidido, mas principalmente pela atitude de entender como normal e justificável, o seu regresso ao parlamento. O motivo do meu choque é o mesmo que apresentei em relação a atitude do Dr. Paulo Pedroso como pessoa singular, já a minha surpresa prende-se com o recordar da atitude, que este mesmo partido teve com uma sua Presidente de Câmara, e especialmente com um Ministro do actual governo ao qual exigirão a demissão por ser testemunha de um processo. Ou seja estes senhores têm o desplante de considerar que um Ministro se deve demitir porque é testemunha de um caso, exigem que uma Presidente Câmara abandone o seu cargo pois é acusada de corrupção, mas para um Deputado que é acusado de Pedofilia entendem como normal e justo que reocupe o seu lugar, pelo simples facto de lhe ter sido alterada a medida de coacção. Sim porque o que o Tribunal da Relação fez foi alterar a medida de coacção do suspeito, e não uma declaração de inocência. Mas para este partido parece que ambas as coisas são uma só, é triste muito triste é esta a politica que temos, para os nossos amigos tudo para os outro nada.

Terça-feira, Outubro 07, 2003

Desilusão

Estou num estado de profunda tristeza, uma desilusão enorme abate-se sobre mim.
Apôs uma escalada de expectativas, eis que tudo se concretiza, mas de uma forma em que só a tristeza e a desilusão parecem ter lugar.
Estou triste, profundamente triste e desiludido. Não sei como combater esta situação, este estado de profunda desilusão. Mais uma vez a maré está adversa. E contra ela tenho que remar.
Mas é difícil, muito difícil, não sei se vou ter forças. Ou se vou finalmente afundar, afogando-me nesta maré contrária. Contraria ao que desejava, contraria ao que esperava, contraria ao que merecia.
Não sei. Não sei, como, onde, com que forças este mal combater.
Estou profundamente triste e desiludido, como nunca estive até hoje não consigo reagir………………………………………………………………………………………………………………………………
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Segunda-feira, Outubro 06, 2003

A Duvida

O que fazer arriscar tudo no escuro ou ficar com o que é seguro.
O que fazer ir a luta arriscar tudo perder ou ficar no nosso canto seguro mas sempre igual.
O que decidir ir em busca do sonho ou ficar na realidade insípida mas segura.
O quer fazer, decidir com bom senso ou arriscar tudo ganhar e tudo puder perder.
O QUE FAZER?